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Painéis solares não geram eletricidade sem luz solar, um fato técnico que raramente muda a decisão de investimento de uma empresa, mas que muda completamente a forma como o dimensionamento de um sistema fotovoltaico precisa ser pensado para operações que funcionam à noite ou em turnos contínuos.
Para uma planta industrial ou um centro de distribuição que opera 24 horas, essa limitação técnica não é um detalhe menor: ela define diretamente quanto de capacidade a empresa precisa contratar da rede, e em que condições, para cobrir o período em que a geração própria simplesmente não existe.
A geração fotovoltaica depende diretamente da incidência de luz solar sobre as células dos painéis. Sem luz, não há efeito fotovoltaico, e portanto não há geração. Isso não é uma limitação técnica corrigível, é uma característica estrutural da tecnologia, o que torna irrelevante buscar painéis que funcionem à noite e relevante entender como a operação continua abastecida nesse período.
Duas alternativas resolvem essa lacuna de formas diferentes: o sistema de compensação de créditos (on-grid), regulamentado pela Resolução Normativa 482/2012 da ANEEL e atualizado pela Lei nº 14.300/2022, e o armazenamento em baterias (off-grid ou híbrido). A escolha entre uma e outra, ou a combinação das duas, depende do perfil de consumo da operação.
No modelo on-grid, o excedente gerado durante o dia é injetado na rede da distribuidora e convertido em créditos, usados para abater o consumo noturno. É o modelo mais acessível e mais adotado no Brasil, mas resolve apenas parte da equação para uma operação industrial: ele não reduz a demanda contratada, o valor pago para garantir capacidade de fornecimento nos horários de maior uso, que continua sendo dimensionada pelo pico de consumo da planta, independentemente da geração solar diurna.
Para operações com consumo intenso à noite ou no horário de ponta, o armazenamento em baterias ataca um problema diferente: não apenas suprir consumo sem sol, mas reduzir o pico de demanda que define o valor da demanda contratada.
Um caso real de armazenamento aplicado a um terminal industrial ilustra esse uso: o sistema foi usado para reduzir o consumo de energia nos horários de pico, resultando em uma redução de 50% na demanda contratada nesses horários e evitando a emissão de 2,4 mil toneladas de CO2 por ano. O projeto foi dimensionado especificamente para atender picos de curva de carga que, sem armazenamento, exigiam uma contratação de capacidade muito acima da média de utilização real da planta.
Entre as tecnologias de bateria disponíveis, as de íons de lítio se destacam pela eficiência energética e vida útil mais longa, enquanto as de chumbo-ácido têm custo inicial mais baixo, mas exigem manutenção mais frequente e prazo de troca mais curto, um trade-off técnico que precisa ser avaliado conforme o perfil de consumo da planta.
O crescimento da geração solar distribuída no Brasil já produz um efeito conhecido como curva do pato: o consumo visto pela rede elétrica cai durante o dia, por causa da geração solar, e sobe rapidamente no fim da tarde, quando a geração cai e o consumo residencial e comercial aumenta ao mesmo tempo.
Para uma planta industrial que opera à noite, isso significa que o horário de maior pressão sobre a rede coincide justamente com o período em que sua própria geração solar não contribui mais. Esse cenário reforça, na prática, por que uma estratégia de energia bem estruturada para operação noturna não pode depender só da geração própria: a parcela consumida fora do horário solar continua exposta às regras do ambiente em que a energia é contratada.
Mesmo consumindo energia da rede durante a noite, uma empresa com geração solar diurna pode comprovar sua pegada renovável por meio de certificados como o I-REC, que rastreiam a origem da energia gerada e consumida ao longo de um período. Isso é relevante para metas de ESG que exigem comprovação auditável, não uma declaração de intenção.
Reduzir a demanda contratada com armazenamento ataca o volume de capacidade que a empresa precisa reservar. Mas o preço pago pela energia consumida da rede durante a noite, mesmo com demanda reduzida, continua sujeito às bandeiras tarifárias do ambiente regulado.
No Mercado Livre de Energia, empresas de grande porte com consumo contínuo negociam diretamente as condições dessa parcela consumida fora do horário solar, com previsibilidade contratual que reduz a exposição a reajustes tarifários que independem do dimensionamento técnico da planta.
Para entender melhor como o crescimento da geração solar se conecta a temas mais amplos de sustentabilidade do setor, vale conhecer também o impacto de parques solares na sustentabilidade regional.
Entender por que a energia solar não funciona à noite é só o ponto de partida. O planejamento real envolve três decisões distintas, que costumam ser tratadas de forma isolada quando deveriam ser parte do mesmo projeto: quanto investir em armazenamento para reduzir picos de demanda, como comprovar a origem renovável do consumo diurno para fins de ESG, e como contratar a energia que ainda vem da rede fora do horário solar.
A Soluções EDP atua na comercialização de energia no Mercado Livre, apoiada em mais de 20 anos de operação no Brasil, ajudando empresas a tratar essa terceira decisão com o mesmo rigor técnico já aplicado ao dimensionamento da geração própria. Use o simulador de economia para avaliar como isso se aplica ao perfil de consumo da sua operação.
Não. A geração depende diretamente de luz solar incidente sobre os painéis; sem luz, não há efeito fotovoltaico, e portanto não há geração, independentemente da tecnologia do painel.
Pode reduzir significativamente, quando dimensionado para atender picos de consumo no horário de ponta, evitando que a empresa precise contratar capacidade acima da sua utilização média real.
Sim, por meio de certificados como o I-REC, que rastreiam a origem da energia consumida ao longo de um período, mesmo quando o consumo físico vem da rede em horários sem geração solar.
Não isoladamente. O Mercado Livre atua sobre o preço da energia contratada, enquanto o dimensionamento de armazenamento ou eficiência atua sobre o volume de demanda. As duas frentes são complementares.
É o padrão de consumo da rede elétrica que cai durante o dia, com a geração solar, e sobe rapidamente no fim da tarde. Para operações noturnas, isso significa que o pico de pressão sobre a rede coincide com o horário em que a geração solar própria já não contribui.
Stella Maris Moreira Fuão é Diretora Comercial na EDP South America, com trajetória executiva no setor elétrico em posições de liderança.
Ao longo da carreira, atuou em áreas comercial e administrativa-financeira, além de gestão de projetos e operações de ativos de geração, transmissão e projetos solares.É bacharel em Direito pela AEUDF e possui MBA em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas (FGV).
Complementa a formação com curso de conselheira (Fundação Dom Cabral), programas executivos em gestão e participação no programa Women on Boards (Nova SBE), em Portugal.Stella escreve sobre Mercado Livre de Energia, com foco no modelo varejista e na evolução regulatória do setor.
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